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Caso Enterrado

História tipicamente rondoniense

FolhasVermelhas · 07 de agosto de 2026

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“Rondônia segue como local de passagem, transitório, talvez até o dia em que esgote sua capacidade de bancar o enriquecimento alheio e acabe ainda mais esquecida”

Meu pai conta da infância dele, homem que saiu de minas com mais ou menos nove anos para vir para Rondônia em razão de brigas de família, contava histórias dignas de cena de filme e romance, todas marcadas pela pobreza e violência do estado. Quando eu nasci e cresci aqui, o estado já havia chegado mais parcialmente na região, mas até hoje o rondoniense se revolta ao seguir a lei, seja leis ambientais — que de acordo com os deputados só poderiam ser criadas por marxistas estrangeiros ambientalistas, etc — ou até respeito as leis do direitos humanos. Numa terra onde homossexualidade é vista como a maior quebra a moral e a lei divina, aparentemente os dez mandamentos não chegaram, e o assassinato ainda é resposta para qualquer ínfima discordância. Não é difícil ver casos onde dívidas, mulheres, e principalmente propriedade, esta sim santa, logo viram casos de assassinato, feitos a baixo preço por algum pistoleiro.

Ora, quando comecei a ler a introdução do livro que hoje apresento, Corumbiara: Caso Enterrado, fiquei como típica pessoa do interior a ver sua cidade aparecer na TV (E como pessoa do interior, horrorizada a ver o crime hediondo cometido para tal evento ocorrer). O autor descreve perfeitamente o sentimento de amargo ao crescer em Rondônia, ser educado e conhecida como parte da grandiosa floresta amazônica, e andar pelo estado só para descobrir centenas de quilômetros de pasto quase sem bois. A diferença que o autor tem a desgraça de vir de fora e tomar esse susto em pouco tempo comparado ao choque que dura uma vida ao nativo daqui.

Soltando esses devaneios rondonienses, falaremos do conteúdo do livro: A ocupação de Corumbiara, nascida de um jovem movimento social, sem apoio declarado de nenhum grupo nacional, mas com líderes educados pela esperança de mudança do jovem PT, das comunidades eclesiais de base e do MST. O acampamento juntou uma quantidade de mais de 500 famílias, que tinham esperança de finalmente conseguir um pedaço de terra.

O sonho logo virou pesadelo quando o processo de desocupação começou no meio da madrugada, sob pressão do proprietário da fazenda e do próprio governador. Os sem-terra tentaram resistir, ora, quem não resiste a tomarem sua chance de uma vida digna? Mas a resistência durou pouco e só aumentou a ira dos policiais. Usaram mulheres de escudo humano para subir o morro onde estavam os “seguranças” do acampamento, quando chegaram, houve terror: de tortura a execução. Foi confirmada a presença de pistoleiros no local antes e durante o massacre.

Depois do massacre, passa-se um bom tempo para ocorrer de fato um julgamento, os policiais claro haviam preparado uma história, a perícia tinha sido suja de caráter ideológico. Tenebrosos franco atiradores, pobres policiais inocentes, “não eram sem-terra, eram terroristas!” gritam até hoje em conjunto, claro em coral quase, tudo combinado de antemão. No fim todos os líderes sem-terra são condenados, no outro lado, dois policiais de baixa patente. Um dos envolvidos, Claudemir, vivia foragido até a escrita do livro (e não há informações de onde ele está hoje), negando cumprir pena pelo crime de lutar pelo direito a terra, um idealista.

O massacre e o subsequente abandono das vítimas sob o governo petista, fundou o Movimento Camponês Corumbiara (MCC) que depois racharia criando a Liga Camponesa, que até hoje assombra os sonhos dos fazendeiros de Rondônia. A Liga usa da ideologia maoísta e quase mensalmente seus líderes são mortos, mas sua capacidade de reorganização constante é admirável. Apesar do que declaram, porém, Rondônia esta longe de ser o campo de batalha revolucionário que gostariam que fosse, com a urbanização e o avanço da hegemonia ideológica burguesa, a revolução agrária que lutam por parece cada dia mais distante.

O livro termina com um breve panorama de como o Brasil seguiu em frente e esqueceu de Corumbiara. Há um sentimento estranho em ver como era a cobertura sobre o massacre quando o mesmo ocorreu, a grande mídia burguesa não tinha a coragem que tinha hoje para declara quase apoio passivo ao massacre. Rondônia quase se recusa a escrever e guardar a sua história, até as aulas de história sobre o estado agora requeridas se resumem a uma romantização do Coronel Rondon e da construção da estrada de ferro Madeira Mamoré. Então, há também um sentimento estranho em reconhecer as cidades citadas no livro, saber que já passei por elas ou pela região. Mais interessante é ver os vereadores e políticos envolvidos no massacre, ter conhecido eles e ver que pouco mudou no discurso reacionário dos latifundiários.

Hoje Corumbiara não passa de um fato pouco conhecido nas cidades do estado, tudo que ocorre em Rondônia não só fica em Rondônia como não fica na lembrança de ninguém. Se quer conhecer esse caso tipicamente rondoniense, recomendo profundamente a leitura deste livro.

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